Quando o assunto é câncer de mama, o diagnóstico precoce continua sendo um dos principais aliados das pacientes. Entretanto, um obstáculo cada vez mais presente tem preocupado especialistas: a disseminação de informações falsas sobre prevenção, exames e tratamento da doença.
Nos últimos anos, conteúdos sem respaldo científico passaram a circular amplamente nas redes sociais, colocando em dúvida a eficácia da mamografia, propagando falsas promessas de cura e disseminando mitos que podem levar mulheres a adiarem a busca por atendimento médico. Entidades médicas brasileiras, como a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e o Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR), já alertaram para os riscos da desinformação relacionada ao câncer de mama.
O problema é frequente. Um levantamento publicado no JAMA Network Open em dezembro de 2025, com 997 pessoas com histórico de câncer de mama nos Estados Unidos, mostrou que 76% relataram ter sido expostas a desinformação sobre a doença, principalmente sobre fatores que supostamente aumentariam ou reduziriam o risco de progressão e recorrência¹. Embora o estudo não tenha encontrado associação entre essa exposição e o medo de recorrência ou a não adesão ao tratamento, os autores ressaltam a necessidade de melhorar a comunicação com as pacientes, inclusive em formatos digitais.
Entre os mitos que costumam circular estão a ideia de que a mamografia causaria câncer, de que a doença poderia ser curada apenas com mudanças alimentares ou suplementos e de que hábitos cotidianos, como o consumo de açúcar ou o uso de desodorante e de celular, seriam responsáveis pelo surgimento dos tumores.
Para Ana Caroline Vicenzi, diretora médica e responsável pelos programas de saúde mental da Dr.Online, o impacto dessas mensagens vai além da confusão gerada nas redes sociais.
“A desinformação pode se transformar em um fator de risco silencioso. Quando uma mulher deixa de realizar uma mamografia, posterga uma consulta ou passa a confiar em soluções sem comprovação científica, ela pode perder um tempo precioso para o diagnóstico precoce. Em oncologia, cada etapa conta.”
A especialista explica que muitas informações falsas exploram medos legítimos das pacientes, especialmente relacionados aos exames de rastreamento. “Recebemos frequentemente dúvidas motivadas por conteúdos vistos na internet. O problema não é apenas a informação incorreta, mas a insegurança que ela gera. O medo faz com que algumas pessoas adiem a procura por avaliação médica, justamente quando o objetivo deveria ser identificar precocemente qualquer alteração.”
Informação confiável também é prevenção
Embora o Outubro Rosa seja tradicionalmente associado à conscientização sobre o câncer de mama, especialistas defendem que a qualidade da informação precisa fazer parte das estratégias de prevenção.
De acordo com Ana Caroline, a facilidade de acesso ao conteúdo digital tornou o combate à desinformação uma responsabilidade compartilhada entre profissionais de saúde, instituições e plataformas de comunicação. “Hoje, promover saúde também significa ajudar as pessoas a identificarem fontes confiáveis. Nem todo conteúdo compartilhado por alguém próximo ou publicado nas redes sociais possui respaldo científico. Em caso de dúvida, a melhor decisão é procurar orientação de profissionais habilitados.”
A médica reforça ainda que a maioria das informações falsas costuma ter um elemento em comum: promessas simples para problemas complexos.
“Quando uma mensagem promete alternativas milagrosas ou descredibiliza exames de rastreamento sem apresentar evidências, é importante acender um sinal de alerta. Dúvidas sobre quando e como fazer o rastreamento devem ser conversadas com um profissional de saúde.”
Informação de qualidade como ferramenta de cuidado, contribuindo para que mais mulheres tenham acesso a orientação segura, diagnóstico precoce e acompanhamento adequado ao longo de toda a jornada de saúde.
























