34ª Romaria da Terra reuniu 2.500 romeiros em Ortigueira; teve reflexão, caminhada e partilha

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Com a experiência de 38 anos “na lida”, a Comissão Pastoral da Terra deu um show de organização na 34ª Romaria da Terra do Paraná, realizada ontem (20). E Ortigueira, na Diocese de Ponta Grossa, onde a celebração aconteceu pela primeira vez na história, fez bonito. Já na entrada da cidade, voluntários da Paróquia São Sebastião e da Congregação (das Escolas de Caridade – Instituto) Cavanis recebiam os romeiros, dando as boas-vindas, entregando o livro de cânticos e repassando as informações práticas. Gente de todos os cantos do Estado vieram. Da Diocese, além de um ônibus com 35 pessoas, oferecido pela Caritas, que saiu de Ponta Grossa, participaram padres, religiosos, seminaristas e agentes de pastorais e movimentos de Reserva, Castro e Ventania.

Ao todo, foram 2.500 romeiros, representantes de comunidades, movimentos e organismos sociais, do campo e da cidade, de todas as dioceses do Estado. A Romaria contou com a presença do arcebispo de Londrina, Dom Geremias Steinmetz, Dom Marcos José, bispo de Cornélio Procópio; Dom Manoel João Francisco, bispo emérito de Cornélio Procópio e o anfitrião, Dom Sergio Arthur Braschi, que chegou cedo e acompanhou toda a celebração. “Ortigueira é terra sagrada, abençoada porque tem presente o agricultor, os indígenas caingangues, os trabalhadores das indústrias de transformação de processamento do papel. Nós vemos essa grande diversidade. Ortigueira é terra de Deus, os campos do Tibagi são terra de Deus, a Diocese de Ponta Grossa é terra de Deus, por isso estamos felizes de acolher todos vocês aqui”, disse o bispo, ao pedir que os romeiros recitassem junto com ele o tema da Romaria: ‘Na terra de Deus, resistir, organizar, partilhar, para a fome saciar!’

Dom Sergio Arthur Braschi, logo após a leitura do Evangelho (Mateus 14), refletiu sobre os contrastes, segundo ele, contidos nessa Palavra, que contou sobre a pregação feita por Jesus a uma multidão, no deserto, e a multiplicação dos pães e peixes. “Já tarde, os discípulos pediram que Ele os despedisse pois não havia comida suficiente para alimentar a todos. Ele abençoou os alimentos que tinha, os distribuiu, todos ficaram saciados e ainda sobrou. Mas, Jesus se compadeceu deles porque pareciam ovelhas sem pastor. Jesus ensinou naquele dia não só a Palavra, mas organização e luta. Acolhamos a Palavra para termos certeza que superando dificuldades e acolhendo as necessidades comuns tudo pode ser transformado”, ressaltou.

Dom Geremias Steinmetz, bispo referencial regional da Comissão Pastoral da Terra, comentou que a CPT surgiu para sustentação para as lutas do povo, daquilo que faz com que a população siga trabalhando, desenvolvendo ideias, ideias, que não vem de hoje. “Em toda essa história sempre houve organização, tentativa e trabalho para que a organização social acontecesse e as pessoas tivessem possibilidade de sonhar juntas, de trabalhar com quem pensa com os mesmos ideais, mesmo desejo de justiça, de paz, de alegria, de bem-estar, de saúde, de ausência total de fome, de ausência total de falta de trabalho para que, de fato, o povo, como nos ensina Jesus Cristo, o nosso povo possa ter vida em plenitude. Isso está por trás dos trabalhos da Romaria da Terra, a partir da nossa fé. Nós queremos com a Romaria da Terra provar e dizer sempre mais ao nosso Paraná que é possível, que temos continuar valorizando as diversidades que existem no Estado. Temos que ‘alagar a tenda’, como diz o Papa Francisco, para que todas as pessoas debaixo dessa tenda estejam protegidas com o dom da vida, o dom da esperança, o dom do trabalho e o dom da saúde. Hoje, aqui, tivemos que estender a corda, a lona, para que todos hoje pudessem estar aqui, acolhidos, para continuarmos sonhando esse grande ideal da nossa fé, de irmos para frente, juntos, sem deixar ninguém para trás. Bom ver aqui quilombolas, os irmãos indígenas, nossas comunidades de pequenos agricultores, que continuam lutando pela terra e por saúde. Vemos todos lutando por um sonho conjunto da educação para que todos possam ter trabalho. A saída é a organização social. Povo que se une para continuar lutando. Não é comunismo. É povo organizado lutando pelos seus direitos.

Padre Mário Valcamonica, pároco da São Sebastião, contou que fazem dez anos que está em Ortigueira. “Sempre achei o município de Ortigueira abençoado por Deus. É só ver os frutos da terra que a gente apresenta a Deus na festa de São Pedro. A fartura. Quando me pediram para sediar a Romaria eu fiquei na dúvida. Mas, depois aceitamos junto com o Conselho Pastoral da Paróquia porque, na apresentação que foi feita, Ortigueira foi chamado de território sagrado. Eu achava que era abençoado e, quando descobri que também era um território sagrado, acabaram todas as dúvidas. Quero agradecer os bispos pela confiança, a prefeitura, todos os trabalhadores da prefeitura, ao conselho da paróquia, da ação social, todos os voluntários, que estão trabalhando há bastante tempo. Hoje, os primeiros, que prepararam o café, chegaram às quatro horas”, detalhou. Padre Mário citou ainda que, alguns estudos que fez, descobriu que no dia 9 de agosto de 1606, em Ortigueira, os padres jesuítas plantaram uma cruz, naquela que era uma das reduções jesuíticas, chamada ‘Encarnacion’. Escolheram esse território da foz do Rio Barra Grande junto com o Tibagi porque era um terreno fértil. Tinha uma montanha de sal. E plantaram três mil pés de uva. Pra dizer da fartura de Ortigueira, desde 400 anos. Ortigueira é um território abençoado e sagrado faz tempo”, afirmou o pároco.

Padre Valdecir Badzinski, secretário executivo do Regional Sul 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil também estava na Romaria.

Romaria

“Foi muito bom. Tudo correu dentro do esperado. Os romeiros gostaram muito da celebração, acharam profunda, real e concreta. O trajeto, o percurso, a Romaria em si, na nossa avaliação, foi muito boa. Ainda vamos fazer ainda uma avaliação local, para ouvir a comunidade, as equipes de trabalho, mas, de uma maneira geral, foi muito bom”, avaliou a agente da CPT, Isabel Diniz, que, ao lado do padre Dirceu Fumagalli, coordenador regional da Comissão, respondeu pela organização da celebração.  

O dia foi repleto de encenações, cantos e orações. Logo depois do café oferecido pela paróquia, sons de pássaros, outros animais e chuva precederam a entrada de quatro pessoas vestidas de branco, uma carregando uma tocha, outra uma balde de água, outra trazia uma gamela de terra e a última, um pau de fitas azuis, que simbolizam o vento. Os elementos faziam referência ao planeta, à terra que separa os mares, que acolhe e alimenta todos os seres. ”E Deus viu que tudo era bom!”, responderam os romeiros, ao fim da leitura de frases que lembravam a criação do mundo, em Gênesis. Os quatro elementos, então, se uniram e uma fumaça azul ganhou o céu. “Louvado sejas, meu Senhor, louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz, variados frutos com flores coloridas e verduras”. A passagem da Laudato si foi lida, em clima de profunda introspecção, quando, em seguida, todos ouviram sobre o ser humano ser sinal do amor e da dedicação generosa de Deus à causa da vida e ajudante na tarefa de cuidar da nossa casa, em sua harmonia. De mãos dadas, os romeiros cantaram o Cântico das Criaturas, de São Francisco.

As reflexões alertaram sobre a diversidade de grupos sociais, modelos de produção e de economia e a necessidade de se respeitar cada um em suas características, garantindo o combate à ganância, à exploração que levam à fome, à miséria e à desigualdade. A terra é de Deus. Somos seus herdeiros e temos obrigação com Ele e com os irmãos, frisavam as falas. A resistência dos povos – pequenos agricultores, agricultores agroecológicos, indígenas, quilombolas, assentados e acampados – foi lembrada na memória histórica da Romaria, quando foram listadas todas elas, seus locais, datas e temas.

 Houve a entrada da cruz, que representou a vida eterna, a vida transformada, a libertação dos pobres e o sinal que a vida sempre vence a morte. A cruz da 34ª Romaria da Terra – feita de hastes de cedro e, com ela, vários símbolos da escravidão da terra e da fome do povo: eucalipto, cana de açúcar e sementes de soja – foi acolhida. Em seguida, todos os romeiros saíram em caminhada até o Centro Cultural Queimadas, a cerca de um quilômetro do centro da cidade. Em meio ao trajeto, a cruz foi plantada no jardim da matriz da Paróquia São Sebastião.  

Da matriz, os romeiros seguiram para um almoço solidário. À tarde, a celebração prosseguiu com dinâmicas que refletiram sobre a produção dos os alimentos, o cultivo de produtos saudáveis e o protagonismo dos trabalhadores pela democratização da terra. Ao final, a partilha da 34ª Romaria e a bênção dos alimentos, que foram trazidos de todas as dioceses para serem distribuídos entre os romeiros e as famílias em situação de vulnerabilidade do município.

Fonte – Diocese de Ponta Grossa

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